Quinta-feira, 24 de Julho de 2008

Dr. Horrible’s Sing-Along Blog

A PhD in Horribleness

 

Tenho de confessar que, apesar de ser um grande fã de Mr. Whedon, não fiquei muito entusiasmado com o anúncio de Dr. Horrible. Por várias razões: por exemplo, a esmagadora maioria dos mini-episódios que andam na internet são, na melhor das hipóteses, maus; havia poucas informações sobre o dito; o trailer não foi nada de especial e a minha atenção estava totalmente focada em Dollhouse. Fiquei agradavelmente surpreendido. Adorei tudo, desde a produção que, apesar de caseira, foi excelente, as músicas de tocar o coração, as piadas de morrer a rir e as personagens fora de série. Aos cinco minutos do primeiro acto já estava apaixonado. Tem aquele encanto. Um mimo.

 

 Neil Patrick Harris é

DR. HORRIBLE

 

Quando soube que Dr. Horrible ia ser uma produção low-cost caseira, nunca pensei que o resultado final fosse este. É claro que é modesto, mas tem uma aparência tão moderna, tão perfeita, que impressiona. Nota-se uma obsessiva atenção ao detalhe em cada cenário, em cada efeito especial. E também nunca pensei que uma produção destas tivesse os efeitos especiais que teve. Apesar de modestos, foram excelentemente bem concebidos e enquadravam-se sempre no espírito da obra.

 

 Felicia Day é

PENNY

 

A música segue o estilo a que Joss nos habituou no seu musical do Buffyverse, Once More With Feeling. Tem músicas bem ritmadas, baladas com a voz mais querida de Felicia Day (e quase que não dávamos por ela em Buffy!), voice-overs cheios de estilo e, por estranho que pareça, uma espécie de hip-hop lento ou R&B rápido na canção Brand New Day. Apesar de não gostar de hip-hop tenho de admitir que gostei. Estava muito bem feito, entrava no contexto como manteiga em pão quente e não era exagerado.

 

Nathan Fillion é

CAPTAIN HAMMER

 

A estrutura e sobretudo o tema desta mini-série, tendo em conta o modo de distribuição, a internet, foi muito bem pensado. É claro que os utilizadores da Internet já não vivem na cave / garagem dos pais e não são nerds que passam os dias de sol no quarto pregados aos computadores, mas remontar às origens da internet e libertar essa nostalgia nerd foi um golpe de mestre. E ficou tudo em consonância. Um exemplo disso é o amor de Horrible por Penny, a típica rapariga do lado (the girl next door). Se repararem, eu tenho algumas dificuldades em classificar Dr. Horrible's Sing-Along Blog: obra, musical, mini-série, web-episodes, etc... Isto acontece porque é realmente inovador. Uma mini-série mais curta distribuída na Internet, mas maior que webisódios, que posteriormente sairá em DVD. Bem diferente do que estamos habituados.

 

Gajos do Bad Horse

 

A interpretação dá vida a este musical com actores que, embora não sejam famosos, são conhecidos, uns mais que outros, é claro. Neil Patrick Harris interpreta a personagem principal, Dr. Horrible, e cai-lhe que nem uma luva. Este actor é actualmente recorrente em How I Met Your Mother (onde está também a Alyson Hannigan, que já trabalhou com Joss em Buffy) e é performer na Broadway. Para quem está familiarizado com o Whedonverse, Nathan Fillion, o nemesis do Doutor, o Captain Hammer, não lhe é estranho. Interpretou o papel do veterano Capitão Malcom Reynols em Firefly e Serenity e o preverso Caleb em Buffy. Actualmente tem um pequeno papel em Desperate Housewives, nem por sombras tão atractivo como os anteriores, mas provavelmente mais conhecido. A menos rodada (sem segundos sentidos) nestas andanças, mas nem por isso menos competente, é Felicia Day, que fez o papel de uma das mini-caçadoras em Buffy, e a sua voz vende boa vontade no papel de Penny. Agora parece bem mais adulta. Destaque também para Moist, que só de olhar para ele qualquer um se desmancha a rir, e Bad Horse, a segunda coisa mais surpreendente e, sem dúvida, a mais agradável.

 

Moist

 

Já referi que Dr. Horrible é engraçado, mas é muito mais que isso. O diálogo é inacreditável, brilhantemente inteligente, tem cada saída que até nos põe a pensar se quem fez isto teria algum poder especial, do tipo inacessível a todas as outras comédias. Faz-me lembrar aqueles episódios da Buffy em que o estômago nos doía de tanto rir. Aqui, tudo foi pensado e feito de acordo com isso. Nenhuma das expressões ou linhas foi deixada ao acaso. Quanto não há cantoria, há piadas, quando não há piadas, há sonhos de bradar aos céus e quando não há isso, há um acontecimento que deita todo o mundo abaixo e nos deixa a pensar se tudo não passou de um sonho ou se o criador disto gosta de ser cruel.

 

 

O enredo anda a volta de três coisas, a jornada de Dr. Horrible para dominar o mundo, a vontade de Penny para dar uma casa aos sem-abrigo e a fachada do Captain Hammer. No primeiro acto presenciamos um roubo do Dr. Horrible. Esse roubo é suposto arranjar uma coisa, que fará com que ele possa fazer um crime. Esse crime poderá valer-lhe a entrada na Evil League Of Evil (A Maldosa Liga do Mal). Ao mesmo tempo, um dos seus objectivos é falar com a rapariga que lhe está a mexer com a cabeça, Penny. As duas coisas interligam-se e, com uma interferência do Captain Hammer as coisas mudam para pior, apesar do plano ter sido bem sucedido. O segundo acto fala quase exclusivamente do triângulo amoroso entre Horrible, Penny e Hammer culminado na promessa de vingança e assassínio de Hammer por parte de Horrible.

 

 

SPOILERS
OS ACONTECIMENTOS REVELADOS NOS PRÓXIMOS PARÁGRAFOS PODEM E VÃO PREJUDICAR GRAVEMENTE O VISIONAMENTO DE

DR. HORRIBLE'S SING-ALONG BLOG

SE AINDA NÃO VIU ACONSELHO FORTEMENTE A PARAR E IR VER E DEPOIS VOLTAR E IR VER OUTRA VEZ

 

 

O primeiro acto é a apresentação dos personagens, deste mundo diferente e o início da história. Dos três actos, o segundo é o meu preferido. Tem humor e drama na quantidade certa. Relaciona as personagens a um nível muito profundo. Acho que representa o espírito desta mini-série como um todo. E se alguém tinha dúvidas de que Dr. Horrible é uma criação de Joss Whedon, os inesperados acontecimentos do terceiro acto vão certamente dissipá-las. Para esse senhor o luto é tão poderoso como o amor. Já o provou diversas vezes e fê-lo mais uma vez aqui. Para uns a sua maior qualidade, para outros o seu maior defeito. Eu apenas fico pasmado e profundamente triste. Mas não pode ser mau ficarmos a pensar numa coisa e debater sobre ela durante muito tempo. Só pode significar que essa 'coisa' foi marcante. Gostava também que o terceiro acto tivesse outra cena em que a Penny e o Doutor cantassem juntos, foram estas cenas que proporcionaram alguns dos melhores momentos, embora seja difícil fazê-lo pois todos eles são muito, muito bons.

 

 

Este universo foi criado de maneira a ter imensos simbolismos. A relação entre Hammer e Penny é uma relação de parasitismo. O capitão só anda com ela porque ela é o amor do Dr. Horrible. Faz-nos pensar que, apesar dele conseguir enganar todos em relação a si, não deveria enganar Penny, pois ela parece daquelas raparigas inteligentes. Mas não. Ela tem daquelas personalidades em que só se vê o bem nas pessoas. A grande revelação do terceiro acto é mesmo a morte de Penny e as suas últimas palavras são que o Captain Hammer os vai salvar a todos. Dr. Horrible apenas quer conquistar o mundo para o mudar, pois acha que este se tornou corrupto. É claro que, em vez de o mudar por meios mais convencionais e correctos, segue o pior caminho. Mas não é genuinamente mau. Aliás, ele não consegue matar o Captain Hammer, o irritante Captain Hammer, todo ele é transparente. Covarde (embora seja preciso ter coragem para comparar os sem-abrigo com a Lassy...), mania das grandezas e desprezo pelos inferiores. No entanto, é esperto, ou teve sorte o suficiente, mais a segunda, para ser idolatrizado por toda a população. Foi ele que matou Penny, embora involuntariamente. Como já mencionei, acho que foi uma atitude extremamente cruel por parte de Joss matar Penny. Ela é a única personagem verdadeiramente pura e honesta, a única que queria fazer o bem pelos meios certos só por fazer, só para ajudar. Sabemos no que acredita o Senhor Whedon, mas já ficamos fartos da sua tara (Tara, tara, perceberam?) em matar todos os seus personagens mais queridos. Jenny, Tara, Wash, Fred e por aí adiante, pois a lista continua. Isto não é maneira de acabar uma comédia! É triste, cruel (outra vez) e muito, muito frustrante. Outra das discussões mais importantes é o amor dos outros personagens por Penny. É óbvio que o Captain Hammer não a amava, mas e o Dr. Horrible? Muitos dizem que ela foi mal tratada pela história, tal e qual a cena em que é empurrada para o lixo, e que era apenas um objecto de disputa para o vilão e o herói. Não concordo. Dr. Horrible já gostava dela antes do Captain Hammer e ficou genuinamente triste aquando a sua morte. Apesar de conseguir os seus objectivos, não ficou contente. Um exemplo daquele ditado. Ele ficou com o que queria, mas será que ficou com o que precisava? Se quiserem chorar... cliquem aqui.

 

 

Mesmo tendo em conta o fim, o mérito não esmorece. Até porque apesar de ficarmos despedaçados, ficamos a pensar nisso durante muito tempo. Toda a série / filme que em 45 minutos ganha um nível de profundidade deste género e ainda proporciona imensos temas para discutir, recebe um 20 pelos meus padrões.

 

 

Não consigo de deixar de pensar em Dr. Horrible's Sing-A-Long Blog como uma grande alegoria. O Captain hammer representa a hipocrisia crescente no mundo e a necessidade popular de fazer heróis onde eles não existem. A Penny representa a pureza e o amor, representa os que querem fazer o bem e acabam magoados por isso. Dr. Horrible quer mudar o mundo da maneira errada. Representa todos aqueles que acham que o mundo está mal, mas que ao tentarem mudá-lo, fazem pior.

 

 

Para concluir, e apesar de tudo, recomendo esta espécie de musical-série-webisódios a todos os que tenham um coração. Literalmente. É lindo, é espantoso, é comédia, é drama, é uma paixão impossível de resistir. Experimentem no iTunes. Se forem fãs de cinema, séries, musicais ou até teatro e virem isto uma vez garanto-vos que o vão ver muitas mais. Eu, por exemplo, estou a roer as unhas pelo DVD. “I hope to set an example, you know, for children and stuff.”

 

 

PS: Peço desculpa pela qualidade do post anterior. Estava com os copos. Acontece. Ao menos foi engraçado...

sinto-me: P....
música: Dr. Horrible & Penny - I Cannot Believe My Eyes

publicado por Ricardo às 22:40
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4 comentários:
De pedro o teu amigo a 26 de Julho de 2008 às 01:19
Só filmes, faz uma analise ao gta(gosto das tuas analises de jogos)


De Ricardo a 29 de Julho de 2008 às 20:15
Ainda não cheguei ao fim do GTA IV. Quando chegar, faço.


De luxxx a 28 de Julho de 2008 às 13:27
Ainda não vi. O meu PC faleceu. Por agora, tenho de lidar com uma máquina que não gosta de mim. Mas como eu também não gosto dela, digamos que estamos quites.


De Ricardo a 29 de Julho de 2008 às 20:14
Acontece... as minhas condolências. Espero que te dês melhor com a tua nova máquina e que venha uma nova depressinha para poderes ver o Dr. Horrible's Sing-Along Blog. Nem que seja no YouTube!


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